A obra e a tradução de Thomas Whiffen

Helio
Prof. Dr. Hélio Rocha (UNIR), tradutor da obra.

Na última sexta-feira, 23, no Auditório da Pós-Graduação da Ufac, ocorreu o Lançamento do Livro O noroeste amazônico: Notas de alguns meses que passei entre tribos canibais, de Thomas Whiffen, traduzido pelo Prof. Dr. Hélio Rocha (UNIR).

A obra é um relato de viagem produzido pelo Capitão Thomas Whiffen em viagem à fronteira amazônica entre Brasil e Colômbia, no início do século XX.

Nas palavras do tradutor, a publicação da obra sob o selo da Nepan Editora, interessa “não apenas para os estudos indígenas do noroeste amazônico, mas para a Literatura e a Antropologia, ou vice-versa; os Estudos Culturais e os Linguísticos.” É de relevância ainda “para quem estuda as Amazônias, sejam elas indígenas ou não-indígenas, considerando-se que se trata de um dos primeiros relatos etnográficos do início do século XX sobre a região mencionada, em especial sobre os povos indígenas do interflúvio Içá-Japurá (Brasil) ou Caquetá-Putumayo (Colômbia).  Como bem afirma Juan Echeverri na introdução da obra whiffeniana,

el libro de Thomas Whiffen es una obra extraordinaria y contiene informaciones que todavía hoy en día son valiosas. Su mapa de distribución de los grupos lingüísticos es un aporte valioso para la etnología regional. Desde mi punto de vista, como conocedor de la literatura antropológica sobre esta región y conocedor de primera mano de sus pueblos, la información que tiene todavía relevancia en este libro es todo lo referente a los atuendos, parafernalia, adornos y pintura corporal, instrumentos musicales, collares, coronas y otros aspectos de la cultura material referente a cacería, pesca y recolección. (ECHEVERRI, 2019, p. 45).

Portanto, uma leitura crítica do relato antropológico de Thomas Whiffen sobre os Bora e os Uitoto, “gente del centro” do mundo, é uma viagem ao mundo desses povos originários da bacia amazônica; pessoas que merecem ser conhecidas para que possam ser respeitadas e valorizadas como portadoras de inúmeros conhecimentos milenares que, mesmo para quem nasceu e vive na Amazônia, mas não se vê como indígena, afro-indígena, ou mesmo amazônida, possa começar a ter uma ideia do que são e representam esses povos-irmãos.”, comenta.

Sobre a tradução

O Prof. Hélio Rocha já possui experiência reconhecida no campo da tradução, em especial, relatos de viagem sobre a amazônia, e destaca elementos da tradução que melhor conduzem o leitor na leitura e produção de sentidos do relato de Whiffen.

“Algumas explicações são necessárias para que nosso trabalho possa ser julgado como confiável. Assim, esclarecemos que muitos termos foram escritos no português contemporâneo. Uitoto, por exemplo, é um desses termos, em vez de Witoto, Huitoto ou Güitoto, da mesma forma que Andoque, Ocaina, etc. Os nomes de alguns rios foram escritos conforme o português brasileiro atual.

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Prof. Juan Echeverri, atuou como revisor técnico da tradução da obra. É autor do texto de introdução da obra traduzida.

Para que a tradução ficasse fluente, algumas modificações sintáticas também foram necessárias, da mesma forma que nomes de palmeiras da Amazônia foram devidamente escritos, tendo em vista que Whiffen cometeu alguns erros em seu processo de etnografia da flora, da fauna e até mesmo de alguns artefatos indígenas. Peach palm, por exemplo, é um desses erros, pois na região não se conhece palmeira-de-pêssego; provavelmente ele se referisse à pupunheira, que produz cachos de pupunha, fruta bastante consumida na região amazônica. Patana para se referir ao patauá, wild alligator pear para abacate, plantation para roçado ou roça indígena, furniture para utensílios de cozinha, ligatures não são ligas, como está na tradução do relato de Alfred Wallace, e sim perneiras ou braçadeiras. Diante de tudo isso, nosso trabalho se pautou numa tradução cultural condizente com o mundo amazônico indígena. Portanto, saiba o leitor que foram necessárias quatro viagens para a região explorada por Whiffen. O objetivo dessa pesquisa de campo foi coletar dados linguísticos e culturais dos indígenas que vivem nos municípios de Tefé, Japurá, Alvarães, Tabatinga, Santo Antônio do Içá e Letícia, na Colômbia e em algumas malocas. A participação em um Fórum Indígena em Tabatinga foi muito importante também, pois possibilitou o encontro com vários representantes dos povos indígenas da mesorregião do Solimões,

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Prof. Mariana Bolfanire, atuou como revisora técnica da obra traduzida.

que é composta por nove municípios, a saber: Fonte Boa, Jutaí, Tonantins, Santo Antônio do Içá, São Paulo de Olivença, Amaturá, Tabatinga, Benjamin Constant e Atalaia do Norte. A visita ao museu do índio em Manaus e à Bibioteca y Museo Etnográfico em Letícia rendeu bons frutos, assim como a aquisição de materiais bibliográficos indispensáveis para quem se aventura num trabalho de tradução no campo da Antropologia, Etnografia, Etnologia. Obviamente, tudo isso consumiu mais de dois anos de estudos e viagens literárias e geográficas; viagens em meio a muitos e-mails enviados aos companheiros de jornada que se interessam por essa área de estudos e pesquisas.”, finaliza.

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