{"id":2957,"date":"2017-04-10T14:17:01","date_gmt":"2017-04-10T19:17:01","guid":{"rendered":"http:\/\/posletrasufac.com\/?p=2957"},"modified":"2017-04-10T14:17:08","modified_gmt":"2017-04-10T19:17:08","slug":"vestibular-indigena-na-ufac","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/2017\/04\/10\/vestibular-indigena-na-ufac\/","title":{"rendered":"Vestibular Ind\u00edgena na Ufac"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"post-title\"><\/h2>\n<hr class=\"none\" \/>\n<p><a title=\"Encontro de professores ind\u00edgenas em Rio Branco - Fotos: Joseneidy de Oliveira\" href=\"https:\/\/i1.wp.com\/pagina20.net\/v2\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/papo_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-74714\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/pagina20.net\/v2\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/papo_1.jpg?fit=800%2C532\" alt=\"\" width=\"575\" height=\"382\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Gleyson Teixeira, Ingrid Weber, Marcos Almeida Matos<\/strong><\/p>\n<p>Est\u00e1vamos desde segunda-feira (03 de abril) em um grande semin\u00e1rio promovido pela Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado do Acre e a Comiss\u00e3o Pr\u00f3-\u00cdndio do Acre, com o apoio da UNICEF, chamado \u201cSubs\u00eddios para a cria\u00e7\u00e3o das categorias \u2018escola ind\u00edgena\u2019 e \u2018professor ind\u00edgena\u2019, e outros marcos para a gest\u00e3o intercultural da EEI no Acre\u201d. Professores e t\u00e9cnicos pedag\u00f3gicos ind\u00edgenas de quase todas as regi\u00f5es do estado, vindos de Terras Ind\u00edgenas de diferentes rios e falantes de diferentes l\u00ednguas, conversavam com intensidade sobre a situa\u00e7\u00e3o atual e sobre o futuro de seus trabalhos na educa\u00e7\u00e3o escolar em suas aldeias, sempre no sentido de ajudar o Estado a elaborar bases legais para garantir a continuidade e a melhoria das escolas. Durante as manh\u00e3s e as tardes as vozes se sucediam, hora animadas e alegres, hora mais graves e preocupadas, mas sempre muito cuidadosas e ponderadas, afinal, todos os professores presentes tem muita experi\u00eancia e compromisso com os seus parentes, que esperam as boas not\u00edcias chegarem na aldeia. As discuss\u00f5es passavam por atualiza\u00e7\u00e3o de assuntos t\u00e3o importantes e interessantes como \u201co que define uma escola ind\u00edgena de qualidade?\u201d, \u201cquais s\u00e3o as responsabilidades e as compet\u00eancias do professor ind\u00edgena?\u201d, \u201cquais s\u00e3o as responsabilidades da SEE e de outras institui\u00e7\u00f5es?\u201d e outros temas.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do quarto dia do encontro, discut\u00edamos os crit\u00e9rios que determinam a escolha dos professores pelas comunidades, todos eles colocando de maneira inovadora e sens\u00edvel as exig\u00eancias que a institui\u00e7\u00e3o da escola traz consigo, e as hist\u00f3rias, os modos de viver e de pensar, a tradi\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o de cada povo. Ainda n\u00e3o haviam sido discutidos em plen\u00e1ria os temas da forma\u00e7\u00e3o dos professores ou da consulta e participa\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas nas pol\u00edticas de educa\u00e7\u00e3o, quando soubemos, atrav\u00e9s de uma professora Yawanawa, que nenhum professor de seu povo foi aprovado no vestibular para o Curso de Forma\u00e7\u00e3o Docente para Ind\u00edgenas da Universidade Federal do Acre. A m\u00e1 not\u00edcia foi se espalhando e se completando: nem os professores Jaminawa, nem os professores Katukina, nem os professores Manxineru, nem os professores Shaw\u00e3dawa, nem os professores Puyanawa\u2026 Por motivos diferentes, alguns, dizem, justificados por detalhes do edital do concurso, professores de seis povos deram com a cara na porta do curso da UFAC, vendo frustradas suas expectativas de se qualificar e assim contribuir com a melhoria da educa\u00e7\u00e3o nas aldeias por quest\u00f5es menores, ou mesmo irrelevantes, se consideradas em rela\u00e7\u00e3o com o trabalho e as necessidades de seus povos.<\/p>\n<p>Imagina-se a cara o os trejeitos daqueles que, de posse das raz\u00f5es do edital, pensado e escrito diante das telas de computador em salas ass\u00e9pticas e esfriadas pelo ar-condicionado, v\u00e3o justificar a exclus\u00e3o dos professores e professoras com a pele queimada pelo sol da viagem, com restos de barro ainda grudados nos chinelos j\u00e1 gastos, com o corpo fortalecido pela experi\u00eancia de trabalho e pelo esfor\u00e7o, que talvez cheguem aos munic\u00edpios mais pr\u00f3ximos das suas aldeias para reclamar e pedir esclarecimentos acerca dos motivos porque foram eliminados no concurso. E a pergunta que insiste \u00e9: quando estamos pensando sobre um curso cuja verdadeira raz\u00e3o de ser \u00e9 o trabalho que os professores ind\u00edgenas realizam em suas aldeias na floresta, faz sentido deixar que o ingresso na Universidade seja determinado t\u00e3o-somente por quest\u00f5es burocr\u00e1ticas que podem facilmente serem mal-compreendidas? Faz sentido um vestibular que considera apenas a profici\u00eancia na l\u00edngua portuguesa escrita, e que desconsidera a experi\u00eancia que os professores ind\u00edgenas s\u00e3o capazes de expressar em seus pr\u00f3prios meios e em sua pr\u00f3pria l\u00edngua? Dada a realidade das dificuldades log\u00edsticas e de comunica\u00e7\u00e3o que perpassa a rela\u00e7\u00e3o entre as escolas ind\u00edgenas e os seus profissionais e as secretarias de educa\u00e7\u00e3o, a UFAC e outras institui\u00e7\u00f5es localizadas nas sedes dos munic\u00edpios, n\u00e3o seria de se esperar que a comiss\u00e3o que pensou a sele\u00e7\u00e3o para o Curso de Forma\u00e7\u00e3o Docente para Ind\u00edgenas garantisse certa flexibilidade na inscri\u00e7\u00e3o e no cumprimento das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a aprova\u00e7\u00e3o no edital?<\/p>\n<p>Durante a nossa conversa, diversos professores come\u00e7aram a contar a hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o desse Curso da UFAC (uma hist\u00f3ria que, apostamos, muitos dos que participaram na elabora\u00e7\u00e3o deste processo seletivo n\u00e3o conhecem t\u00e3o bem). Ouvimos como os professores come\u00e7aram a vir aprender a fazer conta e a escrever e ler para conquistar a sua autonomia diante dos brancos que come\u00e7avam a sair e a desocupar os territ\u00f3rios que ent\u00e3o se tornariam as terras ind\u00edgenas. Da forma\u00e7\u00e3o dos chamados monitores \u00e0 conquista das escolas nas aldeias, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos professores ind\u00edgenas em n\u00edvel m\u00e9dio, at\u00e9 a forma\u00e7\u00e3o continuada: foi chegando o momento de entrar na universidade, e foi com muita luta que os professores ind\u00edgenas conseguiram que a UFAC assumisse o compromisso de fazer um curso espec\u00edfico para a sua forma\u00e7\u00e3o. Duas turmas se formaram neste Curso, em 2014, com toda dificuldade e toda a alegria dos anos de estudo, as vezes longe da aldeia, as vezes pesquisando junto dos parentes, ou viajando para participar de reuni\u00f5es.<\/p>\n<p><a title=\"Foto: Daniel Villamil\" href=\"https:\/\/i1.wp.com\/pagina20.net\/v2\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/papo_2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-74715\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/pagina20.net\/v2\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/papo_2.jpg?fit=800%2C532\" alt=\"\" width=\"575\" height=\"382\" \/><\/a><\/p>\n<p>E, para al\u00e9m dessa miss\u00e3o que foi dada \u00e0 UFAC pelos professores ind\u00edgenas, n\u00e3o teria chegado a hora (j\u00e1 tarde\u2026) das universidades brasileiras se abrirem aos povos origin\u00e1rios? Sabemos que algumas universidades j\u00e1 est\u00e3o fazendo isso, com n\u00edveis variados de sucesso. E justo a Universidade Federal do Acre, ambientada nessa floresta com sua diversidade de povos, culturas e l\u00ednguas, e que parece disposta a acolher essa riqueza de conhecimentos (lembremos da SBPC Ind\u00edgena, do II Encontro Internacional da Ayahuasca, e outros), realiza agora um vestibular que exclui muitos povos, segundo crit\u00e9rios que n\u00e3o foram discutidos junto aos professores e \u00e0s lideran\u00e7as ind\u00edgenas. Ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer um vestibular mais de acordo com as formas de trabalhar e de pensar dos professores que est\u00e3o nas salas de aula nas aldeias? \u00c9 poss\u00edvel uma universidade brasileira que realmente aceite outras linguagens al\u00e9m da l\u00edngua portuguesa oficial, padr\u00e3o? Uma universidade que se constitua juntamente com outras formas de pensar e de conhecer?<\/p>\n<p>Pensando nessas quest\u00f5es, os professores reunidos no semin\u00e1rio encaminharam \u00e0 UFAC a seguinte carta, que foi assinada por todos, e que reproduzimos aqui:<\/p>\n<h4>Rio Branco, 07 de abril de 2017<\/h4>\n<p>N\u00f3s, professores, t\u00e9cnicos pedag\u00f3gicos e outros representantes dos trabalhos de educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena no Estado do Acre, reunidos na oficina \u201cSubs\u00eddios para a cria\u00e7\u00e3o das categorias \u00b4professor ind\u00edgena\u00b4, \u00b4escola ind\u00edgena\u00b4 e outros marcos para a gest\u00e3o intercultural da educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena no Acre\u201d, viemos, atrav\u00e9s desta, pedir esclarecimentos sobre o processo seletivo adotado pela Universidade Federal do Acre para o Curso de Forma\u00e7\u00e3o Docente para Ind\u00edgenas, bem como manifestar o nosso desapontamento com os resultados do concurso, uma vez que nenhum professor Yawanawa, Jaminawa, Puyanawa, Manxineru, Katukina ou Shaw\u00e3dawa foi aprovado. Os professores ind\u00edgenas, suas lideran\u00e7as e outros representantes n\u00e3o participaram da constru\u00e7\u00e3o do processo seletivo do Curso, o que resultou em um vestibular que exclui candidatos por motivos injustos e que contrariam os princ\u00edpios da educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena. O processo seletivo n\u00e3o levou em conta as dificuldades log\u00edsticas e de forma\u00e7\u00e3o que os professores, que deveriam ser os beneficiados por este Curso, enfrentam.<\/p>\n<p>Apesar de todo o nosso trabalho e do esfor\u00e7o dos professores ind\u00edgenas, a educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena no Acre padece por falta de apoio, principalmente na forma\u00e7\u00e3o dos professores e outros profissionais da educa\u00e7\u00e3o. Tivemos esses dias a desagrad\u00e1vel surpresa de saber que, em uma rara oportunidade de participar num curso de forma\u00e7\u00e3o completa (isto \u00e9, que n\u00e3o ocorre \u201cs\u00f3 de vez em quando\u201d), os professores dos povos Yawanawa, Jaminawa, Manxineru, Shaw\u00e3dawa, Puyanawa e Katukina foram reprovados no concurso por quest\u00f5es menores e por falta de informa\u00e7\u00e3o sobre o processo seletivo.<\/p>\n<p>Gostar\u00edamos de enfatizar que o Curso de Forma\u00e7\u00e3o Docente para Ind\u00edgenas foi criado a partir de uma demanda dos professores e das lideran\u00e7as ind\u00edgenas que, preocupados com o futuro da educa\u00e7\u00e3o escolar nas aldeias, buscaram criar as condi\u00e7\u00f5es para a continuidade da forma\u00e7\u00e3o dos professores e para a melhoria de suas escolas. Ainda nos lembramos das in\u00fameras vezes em que muitos de n\u00f3s nos reunimos para tentar ajudar a UFAC a elaborar o Projeto Pol\u00edtico Pedag\u00f3gico do Curso, e nos dispusemos a participar dos processos de elabora\u00e7\u00e3o do Curso, inclusive de seu edital de sele\u00e7\u00e3o. Em 2014, participamos de um grande semin\u00e1rio de revis\u00e3o do PPP do Curso, no qual discutimos longamente sobre os crit\u00e9rios que deveriam presidir o vestibular. Esse Curso deve ser reconhecido como um curso regular da UFAC, mas n\u00e3o deve ser pensado como um curso que \u201c\u00e9 da UFAC\u201d: antes ele \u00e9 dos povos ind\u00edgenas, origem e destino das experi\u00eancias de educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena. Exigimos que a nossa participa\u00e7\u00e3o seja levada a s\u00e9rio pela UFAC, e que o Curso se realize de acordo a sua verdadeira miss\u00e3o: fortalecer e apontar um futuro para a educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena no Acre.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/pagina20.net\/v2\/vestibular-indigena-na-ufac\/\">P\u00e1gina 20<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gleyson Teixeira, Ingrid Weber, Marcos Almeida Matos Est\u00e1vamos desde segunda-feira (03 de abril) em um grande semin\u00e1rio promovido pela Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado do Acre e a Comiss\u00e3o Pr\u00f3-\u00cdndio do Acre, com o apoio da UNICEF, chamado \u201cSubs\u00eddios para<\/p>","protected":false},"author":65883018,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","_crdt_document":"","advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"_wpas_customize_per_network":false},"categories":[233475685],"tags":[],"class_list":["post-2957","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ppgli"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_likes_enabled":false,"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p4Na16-LH","amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2957","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/65883018"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2957"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2957\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2961,"href":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2957\/revisions\/2961"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}