{"id":12165,"date":"2023-11-03T17:46:59","date_gmt":"2023-11-03T22:46:59","guid":{"rendered":"https:\/\/posletrasufac.com\/?p=12165"},"modified":"2023-11-13T09:50:53","modified_gmt":"2023-11-13T14:50:53","slug":"nao-em-nosso-nome-pelo-cessar-fogo-imediato-em-gaza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/posletrasufac.com\/es\/2023\/11\/03\/nao-em-nosso-nome-pelo-cessar-fogo-imediato-em-gaza\/","title":{"rendered":"\u201cN\u00c3O EM NOSSO NOME\u201d: pelo cessar-fogo imediato em Gaza"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Este n\u00e3o \u00e9 um texto historiogr\u00e1fico, mas um clamor. E como tal, pretendo come\u00e7\u00e1-lo a partir de um outro texto, para que com isso se consiga estabelecer uma narrativa que n\u00e3o seja apenas hist\u00f3rica, mas calcada na empatia. Em maio de 1975, o historiador franc\u00eas Pierre Vidal-Naqet publicou um artigo intitulado \u201cIsrael-Palestine: la fronti\u00e8re invisible\u201d no peri\u00f3dico Le Nouvel Observateur. O artigo era fruto de uma visita do historiador a Israel e aos territ\u00f3rios ocupados. Na \u00e9poca, o Estado de Israel ocupava tamb\u00e9m o Sinai, como resultado da Guerra dos Seis Dias (1967), s\u00f3 cedendo o seu controle novamente ao Egito ap\u00f3s os acordos de Camp David. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Vidal-Naqet era judeu, mas estava profundamente desgostoso com a incapacidade dos dissidentes israelenses em desafiarem as posi\u00e7\u00f5es do establishment que antagonizavam diretamente contra os palestinos e demais povos \u00e1rabes. Para ele, o problema residia na rejei\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o hist\u00f3rica que o Estado de Israel institu\u00eda \u2013 e, aceit\u00e1-la, seria compreender que os judeus que ali existiam n\u00e3o estavam na regi\u00e3o por ess\u00eancia, ou por metaf\u00edsica espiritual, mas por uma s\u00e9rie de conting\u00eancias, de \u201cacidentes hist\u00f3ricos\u201d. Dessa forma (e somente desta forma, ele frisava), os palestinos poderiam ser vistos como companheiros. O problema, contudo, \u00e9 que at\u00e9 aquele momento, afirmava o historiador, a pol\u00edtica do movimento sionista era de negar a pr\u00f3pria exist\u00eancia dos \u00e1rabes que viviam nos territ\u00f3rios de Israel e da Palestina. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Para os estudiosos da quest\u00e3o Israel e Palestina, a fala de Vidal-Naqet n\u00e3o \u00e9 surpreendente \u2013 embora certamente ela antecipe muitos textos can\u00f4nicos sobre a quest\u00e3o palestina. Historiadores israelenses como Ilan Papp\u00e9, Shlomo Sand, Tom Segev, entre outros, j\u00e1 expuseram as mazelas de uma l\u00f3gica colonial que estaria nas origens do pr\u00f3prio movimento sionista, t\u00e3o nitidamente expressa no slogan \u201cuma terra sem povo para um povo sem terra\u201d. Historiadores palestinos como Nur Masalha ou Abd al-Jawad destacam que tal perspectiva nega a Hist\u00f3ria e a pr\u00f3pria mem\u00f3ria dos palestinos, entendidos, nos termos de Edward Said, com uma identidade nacional diasp\u00f3rica em suas pr\u00f3prias origens, limitada no pr\u00f3prio ato de representa\u00e7\u00e3o de si.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">O texto do autor de \u201cOs assassinos da mem\u00f3ria\u201d \u00e9, contudo, um alerta para o chamado \u201cmundo ocidental\u201d, clamando para que ele se responsabilize pelas rela\u00e7\u00f5es entre israelenses e palestinos, especialmente diante da trag\u00e9dia do Holocausto \u2013 \u201cantes que um desastre aconte\u00e7a\u201d, anuncia o texto de 1975. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Infelizmente, o desastre aconteceu \u2013 e, a dizer, acontece cotidianamente em Gaza. O ato terrorista cometido pelo Hamas no dia 7 de outubro (o maior ataque contra judeus desde o Holocausto) serviu como justificativa para desencadear uma nova guerra de conquista sobre territ\u00f3rios palestinos. Enquanto este texto \u00e9 escrito, a imprensa internacional divulga um suposto plano do Minist\u00e9rio da Intelig\u00eancia de Israel que pretende remover todos os palestinos de Gaza em dire\u00e7\u00e3o ao norte da pen\u00ednsula do Sinai. Se este plano for efetivado, essa ser\u00e1 a maior di\u00e1spora palestina, superando a Nakba, de 1948.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Enquanto isso, o Estado de Israel e seu governo anunciam que sua guerra \u00e9 contra o Hamas, mas n\u00e3o contra os palestinos \u2013 n\u00e3o obstante, as cifras de civis mortos continuam se empilhando, com direito a ataques das For\u00e7as Armadas Israelenses contra hospitais e at\u00e9 mesmo campos de refugiados em Gaza. A trag\u00e9dia dos eventos n\u00e3o come\u00e7ou agora, mas estamos diante de uma viol\u00eancia cuja desproporcionalidade se d\u00e1 justamente nos ataques contra civis, sendo que a \u00fanica sa\u00edda que Israel prop\u00f5e \u00e9 o deslocamento for\u00e7ado de milh\u00f5es de pessoas enquanto Gaza \u00e9 destru\u00edda. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Se, contudo, o Ocidente pode se assegurar de que fracassou de forma retumbante na condu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es Israel-Palestina, h\u00e1 ainda alguma esperan\u00e7a no \u201cExtremo Ocidente\u201d. Bol\u00edvia, Col\u00f4mbia e Chile denunciaram a agress\u00e3o israelense aos campos de refugiados e aos civis, o que gera maiores tens\u00f5es diplom\u00e1ticas. O Brasil foi o principal articulador da mais robusta proposta de cessar-fogo \u2013 n\u00e3o obstante ela ter sido vetada pelos Estados Unidos no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Ainda assim, \u00e9 preciso que se afirme que \u00e9 muito pouco diante do desastre humanit\u00e1rio que se instituiu na regi\u00e3o.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">A sangrenta hist\u00f3ria de Gaza \u00e9 a hist\u00f3ria dos palestinos que seguiram em seus territ\u00f3rios depois de 1948: que inicialmente ficaram sob controle dos eg\u00edpcios, mas que em 1967 tiveram de lidar com a ocupa\u00e7\u00e3o israelense do territ\u00f3rio que foi o epicentro da primeira e da segunda Intifada; que viram a retirada das tropas israelenses em 1994 por ocasi\u00e3o dos acordos de paz de 1992; que viram o Hamas crescer politicamente na regi\u00e3o \u2013 com o aval das for\u00e7as israelenses, voltadas para o enfraquecimento do Fatah entre os palestinos. \u00c9 a hist\u00f3ria de 2.4 milh\u00f5es de pessoas que, enquanto escrevo este texto, vivem o desastre.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">As palavras de Vidal-Naqet falavam de um desastre enquanto futuro, mas n\u00e3o \u00e9 exagero algum entend\u00ea-lo como algo que precede 1975 \u2013 afinal, para os pr\u00f3prios palestinos, o termo \u201cNakba\u201d traduz-se como \u201cdesastre\u201d. Contudo, naquele momento, o historiador franc\u00eas mudava sua perspectiva a respeito de Israel e da sua pr\u00f3pria identidade judia. Essa mudan\u00e7a ressoa diretamente em outro texto, de outubro de 2000, em meio \u00e0 Segunda Intifada. Trata-se de uma carta intitulada \u201cJudeus franceses em defesa dos direitos dos palestinos\u201d, publicada no Le Monde e assinada por Daniel Bensaid, MarcelFrancis Kahn e Stanislas Tomkiewicz \u2013 bem como pelo pr\u00f3prio Pierre Vidal-Naqet.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Nesta carta, ao denunciarem as agress\u00f5es israelenses, enfatizando a desproporcionalidade do confronto, anunciavam que \u201cuma corrida rumo ao desastre se iniciava\u201d e denunciavam, por sua vez, \u201ca espiral fatal de etniciza\u00e7\u00e3o e confessionaliza\u00e7\u00e3o do conflito\u201d. Mas diante do retorno dos argumentos de 1975, a carta apontava uma sa\u00edda: uma concep\u00e7\u00e3o de fraternidade \u00e1rabe-judia, que s\u00f3 poderia ser atingida com o reconhecimento das resolu\u00e7\u00f5es da ONU, com o reconhecimento do Estado palestino e assegurando o direito de retorno para todos os palestinos que foram expulsos de suas terras. Uma sa\u00edda otimista e que, infelizmente, parece t\u00e3o distante em nosso tempo.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Talvez fosse exigir demais que, diante da responsabilidade do Ocidente para com tantos genoc\u00eddios (do colonialismo \u00e0 Shoah), fosse ele o articulador de uma paz, o desencadeador de uma fraternidade \u00e1rabe-judia. Mas se o Ocidente efetivamente fracassou nessa tarefa, lan\u00e7ando milhares de fam\u00edlias a um desastre sem fim, talvez caiba justamente ao Sul Global um grito potente, uma voz que diga \u201cn\u00e3o em nosso nome\u201d e que se recuse a entrar nessa espiral que articula a limpeza \u00e9tnica de Gaza. O chamado para as historiadoras e os historiadores brasileiros \u00e9 justamente de poderem dizer, sem vacila\u00e7\u00f5es, que o direito de defesa n\u00e3o preconiza o massacre de civis. De dizer, enfim, \u201cn\u00e3o em nosso nome\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Fernando Pureza<br>Universidade Federal do Rio Grande do Norte<br>Autor do livro Hist\u00f3ria da \u00c1sia (2023)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este n\u00e3o \u00e9 um texto historiogr\u00e1fico, mas um clamor. 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